
Há muitos muitos anos, mais do que a história pode contar, dois jardineiros – Aquila e Apus - juntaram-se para plantar e cuidar de uma flor especial e rara – a Glycis.
Cada um deles tinha outras plantas para cuidar, mas cada um por seu lado ia cuidando dela e fazendo-a crescer.
Por vezes zangavam-se, afastavam-se, e Glycis, com a falta de cuidado, murchava e quase definhava. Mas sempre, em algum momento, um deles retomava o cuidado e a flor ganhava novo vigor. Como que renascendo.
E assim se mantiveram durante alguns anos, fazendo com que a flor se mantivesse sobrevivente.
Um dia, Aquila e Apus conversaram e decidiram juntar-se. Unindo esforços para que Glycis, que outrora plantaram juntos, não mais sobrevivesse mas crescesse em todo o seu esplendor. Como desde o início sonharam.
Assim decidiram e assim fizeram.
Aquila cuidava igualmente de um outro jardim, repartindo esse trabalho com Cygnus – um outro jardineiro. Com quem tinha plantado plantas magníficas e feito com que elas apresentassem um verdejante e auspicioso crescimento.
Aquila acordou com Cygnus o seu afastamento daquele jardim, continuando a prestar a Cygnus todo o apoio que ele precisasse para que as plantas daquele jardim pudessem crescer, florescer e frutificar.
Dedicou-se então, com Apus, a cuidar de Glycis com todo o amor. Nunca se esquecendo do jardim que havia tratado com Cygnus.
Um dia Aquila percebeu que Apus já não se interessava por Glycis como anteriormente se interessava. Fazendo com que Aquila tivesse de cuidar, muitas vezes, sózinho de Glycis.
Durante muito tempo Aquila debateu-se com esta mudança de Apus, enquanto mantinha no seu coração o jardim criado com Cygnus. E a pouco e pouco Glycis foi definhando, morrendo...
Aquila abandonou então o jardim de Apus e durante alguns anos errou sem destino, até que um dia encontrou Cygnus que o convidou a voltar ao seu jardim.
Aquila foi adiando a sua decisão, esperando que Apus mudasse de ideias, mas não podendo esperar mais – por si e por Cygnus – voltou então ao jardim de Cygnus. Para aí de alma e coração cuidar, até hoje, desse jardim com Cygnus.
Muitos anos depois, Aquila cruzou-se com Apus, e ambos conversaram sobre Glycis. E da responsabilidade que cada um teve na sua morte. Apus acusou e Aquila ouviu sem contra-argumentar.
Aquila, não concordando, sabia que aquela acusação e versão mantinha Apus feliz. E que essa convicção iria trazer a Apus a energia para continuar a cuidar do seu jardim.
E assim, Apus e Aquila continuaram até toda a eternidade a cuidar de jardins e flores diferentes. Cada um deles confiante na sua versão do passado e do futuro.