domingo, abril 09, 2006

A Inveja



Alguém me disse um outro dia que nunca sentia inveja. Nunca. Já eu - confessava-me à mesma pessoa - era um invejoso assumido.

Assumia que tinha sentimentos estúpidos e primitivos de inveja perante as mais ridículas situações. Quando via um homem com uma mulher bonita (mesmo sentindo-me bem com quem eu estava), quando via alguém num carro XPTO (apesar de adorar as minhas relíquias), quando via alguém mais bonito que eu ou mesmo quando julgava encontrar alguém mais inteligente que eu.
Parecia ser mais forte que eu - mas assumia-o. E parece-me que este é o caminho. Assumi-lo com toda a convicção. Reconhecê-la que ela faz parte do minha íntima programação molecular e que ao longo de anos foi reforçada pela sociedade. Não tendo nunca sido contrariada, esclarecida ou reeducada.
Por isso vejo agora a minha inveja como uma característica - não com a qual nasci - mas que me foi sendo transmitida e cultivada. Basta olhar à volta e ver os jornais, os cartazes, a televisão, ouvir as conversas dos amigos e vemos como tão subtilmente esse sentimento verde nos tem sido ensinado, reforçado e consolidado.

Deste modo consigo trabalhar bem este sentimento verde e transformá-lo cada vez mais num bem interessante e luminoso: a admiração.

Porque é isso que eu gosto verdadeiramente de sentir e sinto-o cada vez mais todos os dias: a admiração pelo próximo.